Thursday, September 29, 2005

VONTADE DE SER



Há um homem sobre a terra, eu. É um animal incrível. Às vezes entretinha-me a dar um balanço à sua aberração, ao seu fantástico vertiginoso. Mas não agora. Dei a volta ao oculto e ao evidente, trespassei-me do seu espanto. Mas a simples vontade de ser, desta coisa inverosímil que é ser um entre a profusão dos seres, desta verdade menos simples que é ser um bicho entre os bichos, deste facto pavoroso de ser um bicho diferente, de ver e saber que vejo, de pensar e saber que penso, de estar vivo e saber que morrerei, de todo o meu prodígio complexo e sem importância nenhuma, de toda a ronda lenta e alucinante- como estou cansado. Cansado no retorno à simplicidade de existir, extenuado e vivo. E um olhar novo desce de mim sobre o meu corpo. Corpo estranho, ridículo, uma massa de carne sempre no risco de se portar mal e apodrecer, com quatro extensões ou cinco e nove buracos. É um extraordinário produtor de lixo. Constantemente, constantemente. E tudo aí acontece e tão longe, tão alto, tão a perder de vista, que me perguntava " como é possível?" Não o sei ainda, mas estou cansado. Foi bom ter nascido, para ver como isto era, para matar a curiosidade. Fugidia alegria, luz breve. Foi a que me coube, em paz a aceito. Em cansaço, em paz. Deve ser igual- haverá diferença?- em serenidade a vivo. Agora espero o meu filho. Águeda era estéril? As evidências não se discutem, a vida é uma evidência. E a terra. Mesmo que tudo esteja em ruínas, como não vir o meu filho? Virá um dia. Viciado talvez. Virá um dia. Dir-lhe-ei então:
-Recomeça tudo de novo. A terra não pode morrer. Como viveria ela sem ti?
Vergílio Ferreira, Alegria Breve
Foto: Patrick Tristão

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