Wednesday, December 20, 2006

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


Fernando Pessoa

Thursday, September 21, 2006

O QUASE

Luiz Fernando Veríssimo

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.

A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Wednesday, July 12, 2006

TOCANDO EM FRENTE

Almir Sater e Renato Teixeira


Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Wednesday, July 05, 2006

COISAS SIMPLES

Gargalhadas de bebês, aquelas que têm um "iac" no meio
Silêncio da alma quando o mundo também faz silêncio
Paz trazida por um amigo
Barulhinho que o mar faz quando mergulhamos
O "crac" da folha seca estalando sob nosso pé
Cheirinho de chocolate derretido
Abraço apertado de alguém que não víamos há muito tempo
Viajar
Chegar de uma viagem
Travesseiro fofinho de uma cama macia na hora do sono
O dormir despreocupado do domingo
Dançar uma música e cantar ao mesmo tempo com a voz mais alta que se tem
Dar um beijo na bochecha da vovó
Ganhar os parabéns quando merecidos
Céu estrelado como teto de uma boa conversa numa noite quente de verão na beira do mar
Viver sentindo e sabendo que são esses pequenos momentos que nos fazem mais felizes

BRINCADEIRA DE LETRAS

Gosto de brincar com as palavras. Elas me divertem e distraem. Elas dançam! Fazem sempre uma bela música, mesmo quando dizem algo que não é lá muito bonito. Elas são belas damas, mágicas. Parecem uma brisa que sopra acariciando um mar calmo, azul, profundo e iluminado. A palavra pode ser luz, pode ser pedra, pedrinhas, pedronas, pode ser inconstitucionalicimamente, e pode ser é, um tão simples verbo que com um acento - enfeite palavrial - significa tantas coisas. A vontade que tenho agora é de escrever infinitamente todas as palavras que eu lembrar e inventar algumas também, mas não caberia aqui. Vou deixar então uma palavra linda. Não, não é amor, pois seria muito piegas (hauahua piegas faz-me rir, parece sei lá o que, mas nada que lembre o que significa). Bom, preciso pensar na palavra né?! Hummmm. Diexa-me ver... Já sei! Acabou e ponto final. Lindo isso!

Thursday, June 15, 2006




...

Quanto a mim...

O amor passou. Mas conservo-lhe uma affeição inalteravel, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequeneina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua indole amoravel. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe attribúo, fossem uma illusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lh'as attribuisse.

Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memoria viva de uma passado morto, como todos os passados; como alguma cousa de commovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos annos é par do progresso na infelicidade e na desillusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infancia, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memoria profunda do seu amor antigo e inutil.
...

Não é necessario que comprehenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.


Fernando Pessoa
Foto: Patrick Tristão

Tuesday, April 25, 2006

OS ÍNDIOS DA MEIA- PRAIA
















Aldeia da Meia -Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço.

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe vê peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo nao saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrario é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada .

Zeca Afonso


Cumpra-se Abril!

Saturday, April 15, 2006

AS PESSOAS SENSÍVEIS


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto
"Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem: Salvador Dalí

O Blog deseja-lhe uma Páscoa Feliz

Tuesday, March 21, 2006

TODO O TEMPO É DE POESIA



Para comemorar o Dia Mundial da Poesia...



Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão
Imagem: Maluda

Tuesday, March 14, 2006

TENHO PENA E NÃO RESPONDO


Fernando Pessoa

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

(Foto: Patrick Tristão)

Sunday, March 05, 2006

DO MUNDO, UM TUDO


Da França, a elegância.
Da Alemanha, a força.
Da Bélgica, a sobriedade.
Da Espanha, Gaudí.
Da Itália, o frescor.
Da Inglaterra, a Rainha.
Da Holanda, a modernidade.
De Portugal, as conquistas.
Do Marrocos, a magia.
Do Brasil, o sol.
Da vida, o imprevisto.
Dos postais, a distância.
Da alma, a liberdade.
Do ser, estar.

(Foto: "Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade")

Friday, March 03, 2006

SOBRE OURO, PÓ E PALAVRAS

Em escutas as palavras vôoam
No romper virginal da esperança
Em pós minúsculos ecôoam
Arma arco e lança
Flutuam no espaço reto
Designado pela vontade
Sobem magnífico coreto
Puxam ao chão pela saudade
Na terra nova a velha terra
O ouro batalha sua luz
Mas o que foi dito dilacera
Passos por cima da cruz
O que futura é o quadro
Preso numa esfera do tempo
Será ele pintado
Ou a tinta é o sabor do vento.

(Foto: bygonebyways)

OHNOS

Eles pensavam azul
Tão monocromática intensidade
Não era preto e branco
Era blue, blau
E jorrava como lua
E brilhava como mar
Cobria como manto
Tingia o cinza, o verde
E o vermelho e o castelo
Pensavam que era cor
Enganaram-se
Era ohnos.

DORME...

Dorme cedo, menina
que tua sina é ter sonho bom
Ver bombom caindo do céu e voar
com um véu de rosas nos cabelos
E os teus atropelos de palavras
verbos, cantos, encantos e acalantos
Tudo que sai dessa boca
Tudo que sai dessa alma
Tudo que vem dessa alma
Tudo que vem dessa boca
É felicidade de anjo que da vida não tem medo
Anjo que dorme cedo
porque tem a sina de fazer a gente ter sonho bom

Pedro Fonseca - amigo pernambucapixaba - Show cara!

Thursday, March 02, 2006

JOKE


I started a joke which started the whole world crying
But I didn't see that the joke was on me, oh no
I started to cry which sarted the whole world laughing
Oh if I'd only seen that the joke was on me.

I looked at the skies running my hands over my eyes
And I fell out ofbed hurting my head from things I said
'Till I finaly died which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me

I looked at the skies running my hands over my eyes
And I fell out of bed hurting my head from things that I said
'Till I finaly died which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
Oh no that the joke was on me

Escrito por Barry, Robin e Maurice Gibb

Pintura: Edvard Munch

Monday, February 20, 2006

NO CAMINHO COM MAIAKOVSKI


(...)

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(Foto: Bianca Pimenta)

Tuesday, February 14, 2006

BOLETIM METEOROLÓGICO


(eu sei que é um bocadinho repetitivo mais uma letra de Jorge Palma... mas o blog tem o meu nome e hoje apetece-me!)

Eu tenho um certo gozo em ver-te contente
Já sei que o meu sentimento é banal
Mas nem por isso o que eu digo
A meu ver é menos importante

Às vezes apetece-me oferecer-te um presente
Mas nem sempre calha
E quando calha é quase sempre
Aparentemente insignificante

Por exemplo gostava de te dar uma paisagem
Com camelos e o mar ao fundo
Maravilhosa e serena
Tranquilamente estimulante

Mas como pintor sou um desastre
E como economista ainda mais decepcionante
Mas mesmo assim eu insisto em fazer parte
Do teu mundo

O boletim meteorológico anunciou calor
Não vou duvidar
Faz sentido no meu sistema solar

Imagina que eu sou um ilusionista
Que arranca coisas do chão, do chapéu, do coração
Talvez asssim vejas em mim um homem novo
Todo elegante

O que na verdade sou e a verdade
Pode ser elevada à coisa sonhada
Reinventada por muito se querer
E eu quero ser o teu amante

Desta vez vou contruir uma cama de espuma
Adequada à função de voar
Com limpa-pára-nuvens
Mesmo à altura do teu olhar

Se for preciso um pára-quedas arranjamos
Uns milagres em bom estado prontos a usar
Se achares que não valeu a pena, aí lamento
Mas não posso mesmo concordar

O boletim meteorológico anunciou calor
Não vou duvidar
Faz sentido no meu sistema solar
Faz sentido no meu sistema solar

Letra e música de Jorge Palma

Sunday, February 05, 2006

O MEU AMOR EXISTE


O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.

Letra e música: Jorge Palma
Pintura: Gustav Klimt

Thursday, January 26, 2006

CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui"-dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Vou só por onde
Me levam os meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentes e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil,
eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio

Pintura: Frida Kahlo

Thursday, January 19, 2006

ADEUS


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Fotografia: José Vieira achada em escrevo enquanto chove lá fora

Wednesday, January 18, 2006

POESIA CAPIXABA





Elisa Lucinda

Todo CAPIXABA tem um segredo de espuma
Uma conversa de duna
Um disse me disse
Todo capixaba é chique
Todo capixaba tem um pouco de beija flor no bico
Uma panela de barro no peito Uma orquídea no gesto
Um cafezinho no jeito
Um trocadilho na brincadeira
Um congo no andar
Um jogo de cintura
Um chá de cidreira
Uma moqueca perfeita
E uma rede no olhar
Todo mundo de lá desenha nas areias brancas
Compõe nas areias pretas
Todo capixaba tem um verso
Tem um pouco de Anchieta
Todo povo por lá
Tem um certo louco
Tem um certo torto
Uma palavra solta
Uma revoada de colibris
Todo capixaba tem uma força de povo
Tem um pouco de Maria Ortiz.
Toda montanha lá tem um caso
Obstinado com o vento
Uma pedra azul Um albatroz de convento
De luva e biquini é que eu vou pra lá
Todo CAPIXABA é um evento!!!

(Capixaba é quem nasce no estado do Espírito Santo, na região sudeste do Brasil)

Fotos: Cidade de Vitória, capital do Espírito Santo / Humberto Capai - Vitoria.ES

Thursday, January 12, 2006

POR ONDE ANDEI














Letra de música
Autor: Nando Reis

Desculpe estou um pouco atrasado
Mas espero que ainda dê tempo
De dizer que andei errado e eu entendo
As suas queixas tão justificáveis
E a falta que eu fiz nessa semana
Coisas que pareceriam óbvias até pr'uma criança

Por onde andei enquanto você me procurava
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava

Amor eu sinto a sua falta
E a falta é a morte da esperança
Como um dia que roubaram seu carro
Deixou uma lembrança
Que a vida é mesmo coisa muito frágil
Uma bobagem uma irrelevância
Diante da eternidade do amor de quem se ama

Por onde andei enquanto você me procurava
E o que eu te dei foi muito pouco ou quase nada

E o que eu deixei algumas roupas penduradas
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava

(Foto: Patrick Tristão)

Friday, January 06, 2006

E DEPOIS DO ADEUS


Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste me flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós

Letra: José Niza
Música: José Calvário
Interpretação: Paulo de Carvalho


Fotografia: Luís Lobo Henriques achada em escrevo enquanto chove lá fora

Friday, December 30, 2005

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana

O blog deseja a você um 2006 cheio de paz e amor!

(Foto: Bianca Pimenta)

Thursday, December 29, 2005

EM NOME DA TERRA, DOS ASTROS E DA PERFEIÇÃO


Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas. Quase estagnadas, só uma leve corrente as modulava. De vez em quando uma palavra chegava-me à boca mas não a deixo agora falar-Que palavra? Queria inventar uma agora para estar certa lá, não a sei. Sinto-a em mim mas não a digo para não existir de mais, é assim. Uma palavra é mortífera, querida. Terás tu falado? não me lembro, não quero ouvir. No fim difícil de uma vida, não quero. Terei de ouvi-las mais tarde, está bem. Palavras de angústia, solidão, alegria, que também tem o seu direito, não agora. Agora tenho apenas a imagem fresca de um bosque, ninfas, talvez, qualquer coisa em que a morte não esteja à porta do imaginar. É duro morrer, querida. Por fim saímos da água e os deuses olharam-nos, humilhados na sua inutlidade. Uma nova raça divina erguia-se em nós. Poderosos, imensos. Trazíamos uma mensagem dos confins das eras, a Terra esperava-nos. Trazíamos a notícia de um corpo incorruptível e perfeito.
- Jura-me que nunca hás-de envelhecer-disse-te.
-Juro.
-E que nunca hás-de morrer.
-Sim.
-E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
-Juro.
Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse
-Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu disseste João sacrílego. E eu disse agora podemo-nos vestir.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

Foto: Patrick Tristão

Friday, December 23, 2005

HISTÓRIA ANTIGA


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais ne menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.


Mas,
por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
que o vivo sol acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

Wednesday, November 30, 2005

CARTA


Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios. Talhares teus gestos como sonhos para que fossem apenas janelas abertas para paisagens novas da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir música e atravessar, sonâmbulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas ao fundo de outras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem sentimentos que não temos.
Eu não te queria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando- nem te vendo talvez, mas talvez reparando que o luar enchera de [] os lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impossíveis.
A visão de ti seria o leito onde minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez como outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao lugar ligar as duas margens escuras do rio que vai ter ao ancião mar onde as caravelas são nossas para sempre.
Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas...

Bernardo Soares/ Fernando Pessoa , O Livro do Desassossego

Foto: Patrick Tristão

Friday, November 11, 2005

CARTA AO FUTURO


Meu amigo:

Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos...É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais completa de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de ocasião, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobretudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azáfama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca.
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro

Thursday, November 10, 2005

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.


Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.


Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drummond de Andrade

Thursday, November 03, 2005

VOOU


Viu a varanda
Levantou-se
Em mente apenas
Mas um apenas pleno
Plenas
Penas
Pena
Plano
Pulou
Voou
Viu
a varanda
E não mais veio
Foi sempre pra
pássaro.

(Foto: Patrick Tristão)

CORPO DE NÓS














Suave engano
Que adorna o ser
Quebra-se no vão da luz
Expõe a calma
Fervilha a paz interior

Ledo saber genético
Mapa ancestral
Justifica as sagas
Do mundo construído
Em pares díspares

Prepotência do belo
Armadilha do tolo
Poço de vaidade
Burka de pele

Deixaste escapar o detalhe
Traduzido no íris-arco
De um órgão
Que vê e mostra
O que está por dentro

Janela
Poço
Poder
Quantas traduções cabem
Ao corpo que cai no tempo
Enquanto sobe a alma?

(Foto: Patrick Tristão)

Thursday, September 29, 2005

VONTADE DE SER



Há um homem sobre a terra, eu. É um animal incrível. Às vezes entretinha-me a dar um balanço à sua aberração, ao seu fantástico vertiginoso. Mas não agora. Dei a volta ao oculto e ao evidente, trespassei-me do seu espanto. Mas a simples vontade de ser, desta coisa inverosímil que é ser um entre a profusão dos seres, desta verdade menos simples que é ser um bicho entre os bichos, deste facto pavoroso de ser um bicho diferente, de ver e saber que vejo, de pensar e saber que penso, de estar vivo e saber que morrerei, de todo o meu prodígio complexo e sem importância nenhuma, de toda a ronda lenta e alucinante- como estou cansado. Cansado no retorno à simplicidade de existir, extenuado e vivo. E um olhar novo desce de mim sobre o meu corpo. Corpo estranho, ridículo, uma massa de carne sempre no risco de se portar mal e apodrecer, com quatro extensões ou cinco e nove buracos. É um extraordinário produtor de lixo. Constantemente, constantemente. E tudo aí acontece e tão longe, tão alto, tão a perder de vista, que me perguntava " como é possível?" Não o sei ainda, mas estou cansado. Foi bom ter nascido, para ver como isto era, para matar a curiosidade. Fugidia alegria, luz breve. Foi a que me coube, em paz a aceito. Em cansaço, em paz. Deve ser igual- haverá diferença?- em serenidade a vivo. Agora espero o meu filho. Águeda era estéril? As evidências não se discutem, a vida é uma evidência. E a terra. Mesmo que tudo esteja em ruínas, como não vir o meu filho? Virá um dia. Viciado talvez. Virá um dia. Dir-lhe-ei então:
-Recomeça tudo de novo. A terra não pode morrer. Como viveria ela sem ti?
Vergílio Ferreira, Alegria Breve
Foto: Patrick Tristão

Wednesday, September 28, 2005

O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

Foto: Patrick Tristão

Saturday, September 24, 2005

AMIGOS

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objecto dela se divida em outros afectos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinicius de Moraes

(Foto: Bianca Pimenta)

Tuesday, September 13, 2005

DEIXA-TE FICAR NA MINHA CASA

Filarmónica Gil

Deixa-te Ficar Na Minha Casa


Tenho livros e papeis espalhados pelo chão
A poeira de uma vida deve ter algum sentido
Uma pista, um sinal de qualquer recordação
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido

Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais. Porque brincas, por que ris
E depois o arrepio: a memória dos afectos
Que me deixa mais feliz

Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré -vasa.
E ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente
Qualquer coisa que ficou, que é da nossa eternidade.
Afinal, eternamente

Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré -vasa.
E ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste

João Monge e João Gil

Wednesday, August 24, 2005

A IMPLOSÃO DA MENTIRA


Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente
como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente.

Afonso Romano de SantAnna

Foto: Bianca Pimenta

Sunday, August 21, 2005

VÔO A PARTIR DO CÉU


O sabor do sentimento invade a garganta
e espalha sobre nós uma intensa dúvida.
Como poder levar a sério a vida que nos faz balançar
ao som de qualquer estrela cadente?
Se a vida nos traz pormenores tão intensos
Por que temos que nos preocupar
com algo maior tao maior, que nos consome?
Sentir é a palavra mais exata.
Sentir o ar, a vida nos enchendo de alegrias,
a cor intensa dos olhos,
as casas emparelhadas lado a lado,
com suas histórias únicas cheias de vida.
E vidas cheias de casas.
Um pedaço de nós está em qualquer parte,
e essa parte que nos forma
é unida com outras tantas espalhadas,
que colhemos nas safras mais férteis,
ou mais áridas.
São frutos da terra.
Nas mãos de quem a lavra.

Wednesday, August 17, 2005

MÚSICA DE CAMA


Música de câmara
Na cama escutada
Ao som de uma anca
Emergindo intactado

mar do lençol
onde se afogara
reúne-se a forma
dessa mesma harpa

Do sono a sonata
Suspende-se a meio
Que o oboé se exalta
Ouvindo este beijo

Rompe um pizzicato
com dedos certeiros
nas cordas de um braço
no bico de um seio

Só a ressonância da cama
permite música de câmara
que seja tão íntima

David Mourão- Ferreira

Enviado por Odete Almerinda

Foto: Patrick Tristão

SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias,
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante;
a profusãode frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha das histórias
do que os outros dirão ou não dirão

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira

Enviado por Odete Almerinda

Foto: Bianca Pimenta

Friday, August 05, 2005

COMO NOSSOS PAIS

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não se enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que tou por fora ou então que tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
É você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem deu me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Belchior

Foto: Bianca Pimenta

TUNTUM

"Nunca mais houve ninguém. Aquele amor apagou o mundo. Quando, muitas lágrimas depois, ressuscitámos, estávamos sozinhos. O luto do grande amor tornara-nos apenas numa pessoa. E ser uma pessoa é muito pouco para quem já foi nada. Para quem já deu tudo. Juramos que nunca mais. Assim não. Nem pensar. «Não te posso dar nada», dizem os amantes uns aos outros depois de terem dado tudo. O nada é aquilo que nos lembra aos outros, quando morremos de uma das múltiplas mortes que podemos ter para os outros. Agora contamos a história tintim por tintim. Mas sobra sempre um tuntum. E se ele voltasse? Sim. Se? Chiu."

Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes

Postado por Odete Almerinda
Foto: Bianca Pimenta

Thursday, August 04, 2005

VIDA: O FILME


Será a realidade, da forma como foi tradicionalmente construída, preferível do ponto de vista moral, estético e epistemológico à pós-realidade? Ou: será a vida, da forma como foi tradicionalmente construída, preferível à versão cinematográfica da vida?

Neal Gabler

Foto: Bianca Pimenta - acampamento do Movimento Sem Terra - Espírito Santo/Brasil

TEORIA DO AMOR


Amor é mais fazer do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
Morrendo e renascendo e sempre pronto
Para em ti me encontrar e me perder.

Manuel Alegre, Sonetos Do Obscuro Quê

Enviado por Odete Almerinda
(Foto: Patrick Tristão)

Wednesday, August 03, 2005

VIAGENS NÃO ACABAM

"O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem sempre."

José Saramago - Viagem a Portugal
Foto: Cidade do Porto